Santiago de Compostela

Em 2013, caminhei 220 km em 10 dias, percorrendo a distância que separa Braga, na região do Minho, no norte de Portugal, de Santiago de Compostela, na Galícia, no noroeste da Espanha. Eu tinha 30 anos. Segui uma das múltiplas rotas possíveis para Santiago tomando estradas de chão em zonas rurais, trilhas pedregosas sobre a montanha, íngremes declives pavimentados, beiras de estradas asfaltadas em periferias urbanas e, por fim, os paralelepípedos milenares que conduzem até a Basílica de Santiago de Compostela. 

Meu ponto de partida foi a Sé de Braga, no dia 2 de junho daquele ano. Dali até o destino, alcançado no dia 11, fotografei outros peregrinos que, como eu, optaram por fazer o trajeto a pé. Gente que veio dali de pertinho ou de muito mais longe do que eu, atravessando os Pirineus pelo sul da França; alguns que peregrinavam pela primeira vez e outros que já eram veteranos da rota; jovens, velhos, gente forte e também os com dificuldade de locomoção. A maioria europeu, um africano, um latino como yo e uns norte-americanos.

O único peso excessivo que me permiti carregar na pequena mochila foi minha câmera analógica Canon-AE1 35mm, com a qual fiz as fotos dessa série que batizei de The Kindness of Strangers… A Bondade de Estranhos… A expressão imortalizada por Blanche DuBois em “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, não saía da minha cabeça durante a caminhada. A gentileza desses desconhecidos veio por meio de frutas doadas sem haver necessidade de pedir, refeições fartas e quentinhas ofertadas em casas que se abriram para mim – eu também uma desconhecida –, orientações dadas quando as setas amarelas falhavam em comunicar e eu perdia o rumo, conversas com “amigos” ao fim do dia diante de um prato de comida e um corpo cansado. 

Porém, mais que isso, a generosidade de que falo aqui foi aquele peteleco que reanimou em mim a fé de que a confiança no outro não só é possível como inevitável. Essa generosidade veio não só de humanos, mas dos bichos, plantas, pedras, ventos e céus que me acompanharam da tristeza à alegria.

Ultreia et suseia! 


Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com

Avatar de Desconhecido
Publicado por:

2 comentários sobre “Gaveta Azul: “A bondade de estranhos”, uma coluna de Maria Bitarello

  1. Que demais, Maria. Parabéns pelas fotos e história. Me deu muita vontade, inclusive, de fazer toda essa peregrinação.
    Que demais!

  2. Os estranhos em sua Sua Gaveta Azul me trouxeram alegria e esperança. Gostei muito do texto e também das fotos.
    Parabéns, Maria!
    Abraços.

Deixe uma resposta